O Lítio, muito conhecido por ser utilizado na fabricação de
baterias de Lítio metálico ou de íons de Lítio, é um metal alcalino
de alto potencial oxidativo (na verdade, é o metal mais fácil de sofrer
corrosão) pertencente à família 1A. Nas condições ambiente é sólido e
macio, apresenta coloração branco-prateada e brilhante. Seu símbolo
químico é Li.
É o metal mais leve que se tem
conhecimento,
com densidade igual a 0,534g/cm³, ou seja, quase metade da densidade
específica da água. Sua massa atômica ponderada vale aproximadamente 7 u
e seu número atômico é igual a 3 (elétrons e prótons). O estado de
oxidação mais comum é o Li
+. Por possuir o
calor específico mais alto dentre as substâncias sólidas, assim, é bastante utilizado em transferências de calor.
É bastante instável (assim como os metais alcalinos, de uma forma geral, praticamente não existe
livre na Natureza), sendo que reage violentamente com água liberando
hidrogênio gasoso e formando hidróxido de Lítio (LiOH, uma base forte). Além de ter muita afinidade química com a água (higroscópico), tende a formar
óxidos facilmente.
Ocorrência e Abundância
O Lítio é um metal raro na crosta terrestre (sua composição não
excede 5ppm), entretanto não é comercialmente caro. As maiores fontes de
Lítio disponíveis para extração são a lepidolita, petalita e
espodúmena. É encontrado também em diversos sais naturais e na água do
mar. Quase sempre obtido pela eletrólise de cloreto de Lítio (LiCl).
Dentre os países produtores destaca-se a Bolívia:
detentor de quase metade das reservas mundiais, cuja meta é produzir
quase 30 mil toneladas por ano até 2012. Correspondendo assim, com
25-30% da produção mundial (estimada em 100 mil toneladas
métricas por ano).
Aplicações
- Baterias (na forma metálica ou iônica);
- Medicamentos para tratamentos psíquicos (bipolaridade, depressão) na forma de carbonato de lítio – Li2CO3;
- Ligas metálicas condutoras de calor;
- Lubrificante (estereato de lítio);
- Depurador de ar em submarinos e naves espaciais (atua removendo o dióxido de carbono)
- Analgésico;
- Prismas ópticos (fluoreto de lítio)
Embora o Lítio
tenha sido utilizado no tratamento de várias condições
neuropsiquiátricas nas últimas três décadas, é particularmente benéfico
para o tratamento agudo da mania e, normalmente, para a profilaxia e
tratamento da depressão nos pacientes bipolares. Os textos seguintes
foram resumidos e compilados do Journal of Clinical Psychiatry 2000, 61 - suplemento 9, objetivando a atualização sobre a neurobiologia e a psicofarmacoterapia do Lítio.
A especificidade e resposta satisfatória do Lítio no Transtorno Bipolar do Humor
pode ser útil na elucidação da fisiopatologia desse transtorno e, muito
possivelmente, levar ao desenvolvimento futuro de drogas mais
eficientes. Com base em revisão bibliográfica os autores participantes
do Journal of Clinical Psychiatry 2000, 61 - suplemento 9*, atestam que o Lítio é, ainda hoje, a droga mais eficaz para o tratamento do Transtorno Bipolar.
O diagnóstico diferencial do Transtorno Bipolar de início na juventude pode ser complicado pela sintomatologia freqüentemente superposta ao Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade. Charles L. Bowden demonstra que o Lítio revolucionou tanto o tratamento quanto o estudo fenomenológico do Transtorno Bipolar e mostra também, que o Lítio
é cada vez mais utilizado em regimes combinados de tratamento,
freqüentemente permitindo doses menores e mais bem toleradas, aliadas
aos benefícios complementares de drogas com diferentes perfis de ação.
As fases depressivas do Transtorno Bipolar podem ser
bastante incapacitante, com significativa comorbidade e associadas a
elevado risco de suicídio, prejuízo funcional e redução da qualidade de
vida. O autor e seu colega, Michael T. Compton, revisam as evidências atuais para manejo da Depressão Bipolar mais efetiva com lítio.
A depressão unipolar é uma grave doença recorrente, com elevada
morbidade ao longo da vida e elevada mortalidade precoce devido ao
suicídio. De acordo com Alec Coppen, vários ensaios duplo-cegos
e controlados por placebo demonstram que o Lítio é eficaz na redução de
recidivas das crises agudas em pacientes com depressão unipolar quando
utilizado como terapia de manutenção.
Efeitos colaterais do Lítio são comuns, porém, geralmente benignos, reporta David L. Dunner. Esse autor divide os efeitos colaterais do Lítio em aqueles que;
– ocorrem precocemente no tratamento,
- são relacionados a interações com outras drogas e
- são devidos à sua toxicidade.
O reconhecimento e tratamento precoces dos efeitos colaterais são aspectos importantes da farmacoterapia com Lítio.
Husseini K. Manji e colaboradores notaram que avanços recentes no
conhecimento da biologia celular e molecular resultaram na identificação
de dois recentes alvos de ação do Lítio. Essas descobertas podem exercer grandes impactos sobre o uso futuro deste cátion na biologia e medicina. Sugerem o uso do Lítio como agente neurotrópico e neuroprotetor no tratanento em longo prazo de transtornos do humor.
Em situações clínicas, uma avaliação do risco de suicídio deve
preceder qualquer tentativa de tratar doenças psiquiátricas, adverte Kay
Redfield Lamison. Ela discute outros fatores de risco para o suicídio e
atesta que, com exceção do Lítio, pouco se sabe sobre contribuições específicas de tratamentos que possam reduzir as taxas de mortalidade em pessoas com graves Transtornos do Humor e, em particular, na Depressão Bipolar.
Como o risco de suicídio associa-se, preferentemente, a episódios
depressivos ou bipolares mistos, Leonardo Tondo e Ross J. Baldessarini
afirmam que a melhor proteção contra a Depressão Bipolar será a chave para reduzir o comportamento suicida no Distúrbio Bipolar. Sua revisão de 22 estudos, entre 1974 e 1998, mostra taxas de suicídio sete vezes menor em pacientes sob tratanento com Lítio, em longo prazo, do que nos pacientes que não estavam recebendo esse tratamento ou após a sua suspensão.
A eficácia do Lítio no tratamento da mania e da Depressão Bipolar
e na reversão do quadro em pacientes não responsivos a antidepressivos
está claramente bem estabelecida. Embora o perfil de tolerabilidade à
droga não seja o ideal, há poucas dúvidas de que o Lítio tenha sido
literalmente um salva-vidas para milhares de pacientes.
A Especificidade Psicofarmacológica do Íon Lítio
De 1949, quando foi introduzido no arsenal terapêutico da psiquiatria até hoje, o Lítio foi avaliado no tratamento de várias condições neuropsiquiátricas mas, indubitavelmente, é no tratamento do Transtorno Bipolar que se tornou mais eficaz e indicado. Isso sugere que ele possua especificidade para o tratamento desse transtorno.
Os achados em pesquisas que atestam a eficácia do Lítio são muito relevantes, visto que a compreensão de seu mecanismo de ação no Transtorno Bipolar
possa ser a chave para a elucidação de sua fisiopatologia e para o
desenvolvimento de tratamentos mais modernos e eficazes. Os autores
revisam os dados publicados sobre a eficácia do Lítio no Transtorno Bipolar
e em várias outras condições neuropsiquiátricas e também os dados
disponíveis sobre anticonvulsivantes e agentes terapêuticos mais
modernos no tratamento desta condição.
O Lítio é, em geral, a droga mais eficaz para o tratamento da Mania Aguda, produzindo melhora em cerca de 70 a 80% dos pacientes. As taxas de resposta variam em diferentes tipos de Transtorno Bipolar. Nos estados maníacos puros e típicos o Lítio
é muito eficaz, enquanto nas manias de tipo mista, atípica e/ou
secundária ou reativa, as taxas de resposta tendem a ser mais baixas,
com descrições de valores entre 29 e 42%. Em conclusão, o Lítio é a droga mais eficaz nos quadros típicos, sugerindo especificidade nessa condição.
Muitos estudos, tanto abertos quanto controlados, têm documentado a eficácia do tratamento com Lítio na profilaxia das fases maníaca e depressiva do Transtorno Bipolar.
As características clínicas de estados maníacos clássicos e mania
seguida de eutimia ou depressão predizem um bom prognóstico para a
profilaxia com Lítio. A presença de história
familiar de transtornos de humor também é um fator positivo de resposta.
Porém, estados mistos, quadros disfóricos, cicladores rápidos, grande
número de episódios anteriores e mania secundária a comorbidades podem
indicar resposta pobre ao Lítio. Desse modo, o Lítio pode ser considerado altamente eficaz nos Transtornos Bipolares de tipos I e II (DSM.IV).
Na depressão por Transtorno Bipolar, o Lítio
apresenta bons resultados, porém não é tão eficaz quanto
antidepressivos. Pode ser usado em combinação com antidepressivos além
de ser mantido em manutenção para profilaxia de novos surtos. Na Depressão Unipolar,
é menos efetivo do que na bipolar, porém é a droga mais utilizada na
potencialização dos antidepressivos, nos casos de depressão resistente.
No Transtorno Esquizoafetivo, quanto mais proeminente o componente afetivo, mais evidente é o benefício do Lítio. Na Esquizofrenia, o Lítio parece ser um bom coadjuvante nos casos de aceleração psicomotora e de periodicidade.
O Lítio mostra efeitos benéficos nos casos
de agressividade, em particular, na agressividade cíclica. Nos abusos de
álcool e drogas ilícitas, há relatos em estudos abertos de algum
benefício, embora não sejam dados controlados. O mesmo pode ser referido
em relação aos transtornos alimentares, compulsividade e estados de
hipersonia.
Outros agentes terapêuticos têm sido descritos no tratamento do Transtorno Bipolar:
entre eles, os anticonvulsivantes, tais como a carbamazepina, o
valproato, lamotrigina e gabapentina, os bloqueadores de canal de cálcio
(verapamil e nimodipina) e os antipsicóticos haloperidol, risperidona,
olanzapina, aripipazol.
Quaisquer desses agentes descritos podem ser associados ao Lítio,
existindo base científica sugerindo benefício adicional, porém, ensaios
clínicos mais sistemáticos são necessários para o desenvolvimento de
uma terapia combinada mais racional.
O Transtorno Bipolar e o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade em Crianças e Adolescentes
A relação entre Transtorno Bipolar e Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH)
em crianças e adolescentes, recentemente, foi um dos tópicos mais
intensamente debatidos na literatura sobre psiquiatria infantil. O
centro do problema é saber se um grande número de crianças com Transtorno Bipolar não está sendo reconhecido ou está sendo erradamente diagnosticado.
O diagnóstico diferencial do Transtorno Bipolar de início na
juventude pode ser complicado por muitos fatores. Mas os dilemas
clínicos mais comuns parecem surgir da superposição da sintomatologia
com TDAH e as diferentes estratégias de tratamento que esses
diagnósticos implicam. Há semelhanças e diferenças entre esses
transtornos no que diz respeito à fenomenologia, epidemiologia, história
familiar, exames de imagem cerebral e resposta ao tratamento.
Uma série de estudos de Harvard indica que a freqüência do Transtorno Bipolar
em jovens pode ser muito maior do que previamente publicado. Com base
em questionários administrados na clínica de diagnóstico e
acompanhamento de TDAH, 22% dos pacientes preencheram critérios para Transtorno Bipolar, elevando-se para 30% se os pacientes tivessem o TDAH com comorbidade com Transtorno de Desafio e Oposição.
Os critérios diagnósticos pela DSM-IV para Transtorno Bipolar e TDAH
sobrepostos com sintomas, tais como loquacidade, distração e agitação
psicomotora podem ser difíceis de serem discernidos clinicamente, assim
como também a "reduzida necessidade de sono", encontrada tanto no Transtorno Bipolar como em muitos casos de TDAH.
A mesma dificuldade de diagnóstico aparece quando consideramos o
fenômeno da "fuga de idéias", indício de pensamento acelerado presente
tanto no Transtorno Bipolar como no TDAH e traduzido como "dificuldade em manter a atenção".
Confusão pode ainda surgir ao analisarmos o "excessivo envolvimento
em atividades agradáveis com elevado potencial de conseqüências
dolorosas", comum no Transtorno Bipolar, contra a "impulsividade" no TDAH.
Outras características desses transornos que se superpõem são os
prejuízos nos relacionamentos sociais e familiares, no desempenho
escolar e na auto-estima.
No entanto, apesar da considerável sobreposição de sintomas entre
essas duas patologias, alguns critérios revelam um bom poder de
discriminação entre elas. No maior estudo bem-controlado existente até o
momento, Geller e colaboradores examinaram 60 crianças com Transtorno Bipolar e 60 com TDAH e verificaram que a elevação do humor ocorreu em 87% das crianças com Transtorno Bipolar
e em apenas 5% daquelas com TDAH. O sentimento de grandiosidade ocorreu
em 85% das crianças com Transorno Bipolar versus 7% das com TDAH.
Diminuição da necessidade de sono, fuga de pensamentos e
hiper-sexualidade também foram relatados como sendo muito mais comuns no
Transtorno Bipolar do que no
TDAH.
Mas, mesmo com essas observações, as distinções clínicas são bastante
complicadas pelo fato de que, tanto o Transtorno Bipolar quanto o TDAH, são altamente comórbidos com outras alterações, tais como o Transtorno de Desafio e Oposição ou os Transtornos de Conduta. Além disso, o TDAH é bastante comum em jovens com Transtorno Bipolar.
O seguimento desses pacientes, a história familiar bem detalhada
(ambos são transtornos hereditários) e a presença ou ausência de
episódios discretos de mania são pontos-chave na definição diagnóstica. O
TDAH é o mais comum na infância, ocorrendo em 3 a 5% dessa população e, ao contrário, somente 20% dos adultos com Transtorno Bipolar iniciam seus sintomas antes dos 19 anos e, em apenas 0,5% deles, antes dos 10 anos. Se 22% das crianças que têm TDAH evoluem com Transtorno Bipolar,
isso significa 0,88% de prevalência, ou seja quase a totalidade deste
quadro (a prevalência do Transtorno Bipolar é, em média, 1 %).
Nos exames por imagem do cérebro, embora haja alguma sobreposição de
comprometimento, tais como em áreas do cerebelo e gânglios basais, os
achados são divergentes, especialmente nas regiões temporal e medial, as
quais estão alteradas no Transtorno Bipolar e normais no TDAH.
Em termos de tratamento, o Lítio, a
carbamazepina e o valproato são largamente utilizados como
estabilizadores de humor na esfera pediátrica, embora só o primeiro
tenha aprovação pelo FDA para o Transtorno Bipolar em crianças e
adolescentes acima dos 12 anos, com suporte de poucos estudos clínicos
existentes. Para o TDAH, o uso de estimulantes, tais como o
metilfenidato, a dextroanfetamina e a associação dessa com a anfetamina
são as drogas mais usadas, com eficácia elevada. Respostas ausentes ou
atípicas devem suscitar uma reavaliação diagnóstica.
A Eficácia do Lítio na Mania e na Terapia de Manutenção do Transtorno Bipolar
O Lítio
foi introduzido em 1949, como tratamento para a mania, sendo essa,
ainda, a mais forte evidência de sua eficácia. Alcançou resultados
consistentemente melhores no tratamento da mania do que os neurolépticos
e a carbamazepina e resultados equivalentes aos do divalproato de
sódio. Sua eficácia na Depressão Bipolar permanece estudada de forma limitada. O Lítio fornece, também, benefícios na profilaxia.
Evidências convergentes de estudos clínicos e em animais indicam que um dos principais efeitos comportamentais do Lítio é a redução da atividade motora. O Lítio
está sendo cada vez mais utilizado em regimes combinados de tratamento,
permitindo assim, o uso de doses menores e mais bem toleradas, e com
benefícios adicionais. A evidência mais forte da eficácia do Lítio ocorre no tratamento da Mania Aguda.
Diversos estudos controlados por placebo foram positivos. 0 Lítio foi comparado a antipsicóticos e anticonvulsivantes no tratamento da Mania
e considerado consistentemente superior às drogas antipsicóticas em
ensaios randomizados e duplo-cegos. No maior estudo controlado sobre o
uso do Lítio na mania, e o único com grupo paralelo, o Lítio
foi comparado ao anticonvulsivante divalproex e ambas as drogas foram
significativamente superiores ao placebo. Esses resultados são
particularmente dignos de nota, tendo em vista que os pacientes estavam
gravemente doentes, com mais de um terço deles apresentando sintomas
psicóticos. Nenhum neuroléptico foi permitido, e apenas lorazepam ou
hidrato de cloral puderam ser associados durante os primeiros dez dias
do estudo.
Em outra comparação randomizada cega do Lítio
com o valproato, as drogas foram igualmente eficazes, com melhora
moderadamente maior, ainda que não significativa, entre os pacientes
tratados com Lítio. No pequeno número de comparações com a carbamazepina, o Lítio foi superior ou, no mínimo, igualmente eficaz. Esses estudos não foram controlados com placebo. O Lítio foi considerado superior ao bloqueador de canais de cálcio verapanil, no único estudo comparativo randomizado.
A resposta dos quadros agudos ao Lítio
parece ser do tipo tudo ou nada, ou seja, a maioria dos pacientes
responsivos apresenta grande controle do quadro, enquanto os
não-responsivos pouco se modificam. Os fatores associados com boa
resposta são o uso prévio positivo, a sintomatologia maníaca pura e de
gravidade leve a moderada, poucos episódios polares, a ausência de
cursos de ciclos rápidos, de sintomatologia psicótica, de abuso de
drogas e de comorbidades.
As evidências da eficácia do Lítio no tratamento de manutenção do Transtorno Bipolar também são fortes. Diversos estudos controlados por placebo foram positivos. O Lítio
foi comparado a antipsicóticos e anticonvulsivantes e considerado
consistentemente superior ou, no mínimo, igual às drogas antipsicóticas,
em ensaios randomizados e duplo-cegos.
Em estudos controlados, o Lítio foi
comparável ao anticonvulsivante divalproato de sódio, em termos de
eficácia, porém com taxa de descontinuação superior. No pequeno número
de comparações com a carbamazepina, o Lítio foi superior ou, no mínimo,
igualmente eficaz. Análises longitudinais também falam a favor da
eficácia do Lítio na profilaxia do Transtorno Bipolar.
Os fatores associados com boa resposta ao uso crônico são uso prévio
positivo, sintomatologia maníaca pura e de gravidade leve a moderada,
poucos episódios polares, litemias maiores ou iguais a 0,8 mEq/L,
ausência de cursos de ciclos rápidos, de sintomatologia psicótica, de
abuso de drogas e de comorbidades.
Em termos de ação sobre suicídio, o Lítio,
em metanálise dos diversos ensaios clínicos, mostrou redução de cerca de
sete vezes na ocorrência desse quadro, com alto significado
estatístico. Nenhum outro fármaco demonstrou essa ação, até a
atualidade.
O Lítio tem uma dose tóxica superior a 3,0 mEq/L, enquanto que a dose
terapêutica situa-se entre 0,8 e 1 ,2 mEq/L, e isso traz algum cuidado
no manuseio. A incidência de descontinuação precoce tem se mostrado
elevado, em decorrência da tolerabilidade, o que tem sido observado em
ensaios abertos. Alterações cognitivas, dificuldades motoras, tremores,
ganho de peso e anormalidades gastrintestinais são os efeitos mais
comuns. As estratégias mais utilizadas, nesses casos, são modificar a
formulação, reduzir a dosagem, associar com outras drogas ou modificar
para outro agente terapêutico.
O Lítio na Depressão Unipolar e na Prevenção do Suicídio
A
depressão unipolar é uma grave doença recorrente, com elevada
morbidade, ao longo da vida e mortalidade prematura por suicídio. Após
um episódio de depressão que respondeu ao tratamento, os pacientes
necessitam de continuidade do tratamento por um período considerável de
tempo para prevenir recidivas.
A maioria dos autores, em consenso, recomenda um período de cerca de
seis meses de tratamento, após a recuperação clínica, mas muitos já
estão optando por um ano ou mais. Enfatizam, também, que esse período é
arbitrário e que o final do período de manutenção necessário pode apenas
ser determinado por tentativa e erro, isto é, pela interrupção do
tratamento e observação do paciente para ver se há recidiva.
As declarações de consenso reconhecem atualmente que, se os pacientes
tiverem apresentado dois ou três episódios prévios, as chances de nova
recidiva são tão grandes que o tratamento de manutenção deve se estender
por prazo mais prolongado ou, quiçá, pela vida toda.
Numerosos ensaios duplo-cegos, controlados por placebo, demonstraram que o Lítio
é muito eficaz na redução das recidivas, quando administrado como
terapia de manutenção. Ele é também muito eficaz quando administrado
como terapia de manutenção, após a eletroconvulsoterapia. Pode ser
administrado uma vez por dia, à noite, e ensaios controlados mostraram
um nível plasmático de Lítio em 12 horas entre 0,5 e 0,7 mmol/L, como
sendo o mais eficaz, com poucos efeitos colaterais.
A redução da morbidade afetiva e da hospitalização em pacientes com
litemias < 0,79 mEq/L foi de 34,2% ( p < ,05 ). Estudos de longa
duração sobre tratamento de manutenção com Lítio
mostram baixa freqüência de suicídios: 1,3 suicídios por 1.000
pacientes/ano. Esse número é muito menor que o de estudos comparativos
de longa duração, da depressão não tratada, que mostram cerca de 5,4
suicídios por 1.000 pacientes/ano.
Lítio no Tratamento da Depressão Bipolar
Os transtornos bipolares tipos I e II afetam, aproximadamente, 0,8% e 0,5% da população adulta, ao longo da vida. O termo Depressão Bipolar refere-se a um Episódio de Depressão Maior
que ocorre num paciente que preenche critérios para Transtorno Bipolar
tipos I ou II. Nesses quadros, tais episódios são freqüentemente
caracterizados por períodos de duração mais breve, quando comparado
àqueles da depressão, seja unipolar ou bipolar, e podem envolver início
mais rápido, anergia, lentificação psicomotora e sintomas
neurovegetativos reversos (hipersonia e hiperfagia).
A história familiar de Transtorno Bipolar e Episódios Depressivos de início precoce são indicadores de que o paciente com depressão possa estar sob risco de Transtorno Bipolar, incluindo hipomania ou mania induzida por antidepressivos.
As fases depressivas do Transtorno Bipolar podem ser muito incapacitantes. Com base em um seguimento de 18 meses, Keller e colaboradores notaram que a probabilidade do paciente permanecer doente por um ano ou mais foi de 7% para pacientes com Mania, comparado com 22% para pacientes com Depressão.
Ampla gama de estudos mostra que 25 a 50% dos pacientes bipolares
tentam o suicídio, pelo menos, uma vez. Em uma revisão de estudos de
seguimento, 15% dos pacientes cometeram suicídio. Esta taxa é pelo menos
30 vezes superior à taxa encontrada na população geral.
Embora não seja tangível nem ético conduzir estudos duplo-cegos sobre
a redução de suicídios, a evidência maciça mostra redução na morbidade
no tratamento com Lítio e sugere o tratamento sistemático em longo prazo
com Lítio na Depressão Unipolar, a
fim de reduzir consideravelmente a taxa de suicídio. Os psiquiatras
devem ser treinados para serem capazes de prolongar ao máximo o período
de uso do Lítio, pois o seu benefício vale a pena.
O tratamento da Depressão Bipolar representa uma área
relativamente pouco estudada na psiquiatria clínica. Os autores
revisaram as evidências atuais para o manejo da Depressão Bipolar.
As referências para essa revisão foram obtidas através de pesquisas
pela MEDLINE da literatura médica em relação a assuntos pertinentes ao
tratamento da Depressão Bipolar. Os termos de pesquisa incluíram Depressão Bipolar, antidepressivo e Transtorno Bipolar. Apenas publicações em inglês foram revisadas.
O Lítio pode ainda ser apropriado para o tratamento inicial para a fase depressiva do Transtorno Bipolar,
obtendo-se respostas ao redor de 79%. Outros estabilizadores do humor
demonstraram também eficácia em pesquisas preliminares. Os
anticonvulsivantes também têm sido pesquisados com esse intuito, como
por exemplo, a Carbamazepina cujo efeito antidepressivo é algo inferior
ao Lítio, podendo ser potencializada por esse; o Valproato de Sódio (ou Ácido Valproico), que parece ser mais eficaz no tratamento da Mania do que no da Depressão, com um efeito antidepressivo fraco a moderado; a Lamotrigina, que apresenta resultados preliminares promissores e a Gabapentina, que poderá vir a ser uma opção de segunda linha para essa indicação.
Dentre os antidepressivos, os inibidores seletivos da recaptação da serotonina podem estar associados ao Lítio
com menor risco de indução de hipomania, mania e ciclagem rápida, em
comparação aos antidepressivos tricíclico. Os inibidores da
monoaminoxidase devem ser considerados como escolha em pacientes com Depressão Bipolar Anérgica.
A terapia eletroconvulsiva mostrou ser muito eficaz em pacientes com
quadros graves e com risco de suicídio ou alterações psicóticas. As
demais formas de tratamento, incluindo psicoterapia, privação de sono,
fototerapia e drogas mais modernas, necessitam ainda de pesquisas
adicionais. Embora o tratamento da Depressão Bipolar possa ser uma
tarefa clínica difícil, os esquemas de tratamento estão se tornando mais
numerosos e adequados. Pesquisas adicionais, especialmente sob forma de
ensaios randomizados controlados, são necessárias.
O Lítio parece diminuir a chance de demência
Tem
sido cada vez mais cogitado que o lítio teria capacidade
neuroprotetora, reduzindo assim o risco de desenvolvimento de demência
na senilidade. Algumas conclusões puderam ser extraídas de um estudo de
comparação entre todos os pacientes que receberam lítio em tratamento
psiquiátrico na Dinamarca entre janeiro de 1995 e dezembro de 2005 (10
anos) e uma amostra aleatória da população geral.
Tal estudo avaliou 16.238 pacientes que compraram lítio nas farmácias
da Dinamarca em comparação com 1.487.177 pessoas da população geral que
não compraram essa substância. As pessoas que continuaram
comprando o lítio, indicativo de que continuaram o tratamento à base
dessa substância, a taxa de demência de Alzheimer diminuiu até ao nível
da população geral. O mesmo não se observou com compradores de
anticonvulsivantes. O trabalho concluiu que a taxa de demência
manteve-se a mesma da população geral em pessoas com tratamento
continuado com lítio.
Outros estudos mostraram que o lítio pode ser útil no tratamento da Doença de Alzheimer.
Investigações experimentais mostraram que o lítio é capaz de induzir
maior produção de uma proteína neurotrófica protetora, BDNF, a qual se
encontra diminuída em portadores da Doença de Alzheimer.
Esse estudo acompanhou variações nos níveis de
BDNF durante 10 semanas. Pacientes com Alzheimer e tratados com lítio
tiveram um aumento nos níveis de BDNF e melhora na cognição. O aumento
de BDNF teria um efeito neuroprotetor, melhorando assim o déficit
cognitivo próprio dessa doença.
Por:
Julio Cesar Lima Lira
Alccy Marthins
Ballone e Moura